segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O poder da responsabilidade no voluntariado

Como voluntários, a princípio não recai sobre nós grande responsabilidade. Estamos lá porque queremos, porque decidimos, porque empenhamos nossa vontade, dedicamos nosso tempo e ocupamos um espaço carente de AtenÇÃO.

Mas a realidade é que a responsabilidade exatamente pelo voluntariado ser em área cronicamente carente, é crucial e delicada em uma região abandonada pelo Estado desde sempre, onde coleta de lixo é quinzenal quando não sazonal ou inexistente, onde a justiça é feita pelas próprias mãos e práticas de pedofilia são parte do contexto de miséria e um tal de "contexto cultural da zona rural", onde as pessoas consideram quem ganha R$540 de pensão como viúva uma pessoa rica e abastada, e onde o descontrole da falta de informação e articulação da ajuda leva a exageros e desmedidas.

Como reclamar de uma família abandonada sempre à própria sorte, que perdeu tudo ou ao menos boa parte do sustento e que estoca comida para três meses - até porque se chover novamente, podem ficar isolados mais uma vez?

Como saber se negar algo poderá representar a falta e a angústia? Como saber se a pessoa irá estocar para uso próprio ou para a revenda?

No QG do CEASA isto fica ainda mais difícil - não se tem acesso ao local de moradia e estoque da pessoa - e é dura a psicologia do voluntário: não pode liberar os donativos sem um cadastro, mesmo quando o cadastro é difícil de ser feito em uma região onde nomes de localidades nem no mapa estão. Como dizer sim ou, pior, não para alguém que vem de longe, a pé, a cavalo ou de carro em busca de ajuda, de comida e água? Ao mesmo passo que é revoltante pensar que se está dando donativos para aproveitadores. Quem é quem nesta história toda, onde não há bem ou mal, exceto no que trata saqueadores e revendedores.

O poder do voluntário de inferir no destino imediato de cada pessoa é algo que tem que ser feito por intuição, com o mínimo de informação que nos é possível ter, sondando com conhecidos a cerca da história e índole de determinada pessoa, acesso às poucas informações cadastrais... e, no campo, entrar nas casas das pessoas para checar se há abusos - o que, em última instância, é um abuso por si só.

Todavia, se não entrarmos para checar - o que é feito, lamentavelmente, pelo princípio da desconfiança e, graças ao Amor com o qual nos empenhamos, da motivação de poder levar aquilo do que carecem as pessoas, humildes e submissas às situações, tal qual o poder da elite local e o poder público gostam que seja - não temos como beneficiar de fato.

Isto tudo me lembra uma frase ouvida em filmes de guerra: "épocas extremas necessitam de medidas extremas".

Contudo, que a extremidade seja a ponta reflexiva do coração que aponta amorosamente as atitudes e ações corretas a serem tomadas para beneficiar a todos da maneira mais justa que o caos da atualidade permite.

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